"Vó Indalice"

Hoje acordei com o cheiro da erva-cidreira entrando suave pela porta dos fundos. O aroma trouxe lembranças de minha avó paterna, quando ela colhia os galhos da planta medicinal para o chá da tardinha. Era lindo o quintal de casa com canteiros cheios de copos de leite, bugarim, rabo de macaco, palmeiras e roseiras bem vistosas.

Saudade de nossas tardes com pão quente e sua “coquinha”, das partidas de baralho que terminavam com o capricho de seu cafuné.

Nos seus últimos dias, completamente cega “dos olhos”, mas enxergando bem seus sonhos, confundia-os com o real. Era bom guiá-la na sua cadeira de rodas pelo corredor de nossa casa, fazendo parte de seu desvario:

“Vamos, minha vó, o trem tá chegando, coloca teu chapéu mais charmoso, vamos para a Bahia! O pé de Pitanga está florindo, é domingo, vai ter tua galinha assada... parece que vai ter missa, vamos cantar sua musiquinha: ‘dizem que amar é de sorte, sorte é para quem tem, eu que não tive sorte, não devo amar a ninguém’...”.

Minha avó exigia seu “leite de rosas” e um pouco de pó no rosto para contemplar nossas divagações. Em cada viagem, permitia-me pisar no terreiro das invenções e a arte de melhorar as limitações da retina.

Vó Indalice, obrigado por tudo. Há muita coisa de você dentro de mim. Quando escrevo uma crônica, muitas vezes, tento caprichar como em nossos passeios. Quem sabe um dia, da mesma forma que a senhora fazia, alguém viaje com minha escrita e, escondendo o riso com a palma da mão, diga: “Eta, Dimá danado, Meu Deus!”.