"Tem uma coisa bonita em mim"

- Tem uma coisa bonita em mim que eu queria escrever...

Encontrei esta frase no meu bloco de anotações que levei para Portugal. Não recordo em qual momento escrevi, mas as letras tortas e as manchas ao redor denunciam uma noite de muito vinho.

Talvez tenha escrito em uma noite solitária na cidade de Porto, no confortável restaurante Garrett, quando, nos passos avançados da embriaguez, confessei ao proprietário, o simpático Estevão, que seu restaurante inspirava uma bela crônica. Talvez acreditando que eu seria algum crítico turístico, o rapaz sempre se desculpava por alguma possível falha no atendimento e, gentilmente, concedia azeitonas e doses de uísque sem custo. Tentei explicar que era um cronista lírico, mas depois achei prudente não recusar uísque de boa qualidade.

Não sei qual “coisa bonita” queria escrever, todavia, cativou-me a frase perdida. Hoje, acordei com uma neblina fria e uma leve fumaça saindo da minha respiração, lembrando-me um pouco o inverno lusitano e que ainda tenho muitas coisas bonitas dentro de mim, prometendo-se ao calor da escrita.

Embora apetitosa, não aprecio escrever sobre o tempero da dourada grelhada do restaurante Garret ou se o vinho tinto da casa tem algum requinte especial. Caro Estevão, interesso-me mais em saber que na mesa ao lado há um exílio de mãos e olhares incertos de alguém que se arriscou demais na travessia da finitude; que aquele torcedor solitário do Benfica regressará para a casa da amada e lançará um bilhete na varanda florida, cultivando preces para que a poesia acerte a janela do perdão.

Baudelaire nos alertou que sempre é hora de embriagar-se, seja de vinho, poesia ou de virtude. No entanto, bom mesmo é acreditar que há coisas bonitas dentro de nós para escrever...