"Superlua"

- Corre aqui, Zé! Olha a lua como está enorme, bonita. Bem que o jornal disse que era o fenômeno da superlua.

- É mesmo! Eta... a lua desse tamanho tá boa é para tanger os porcos...

 Acho que cada um tem a lua que merece. Eu não me arriscaria dar uma utilidade laboral a lua, ela é muito arisca, indomável.

 Confesso que não resisto à delicadeza lunar. Principalmente agora que meu filho quebrou meus óculos, a miopia não me permite perceber as suas margens, deixando-as borradas, maiores, atormentando o céu com o feitiço do seu pó prateado.

 Da minha janela ela moldura minhas quimeras, mirando o seu caminho, como se pisasse na escuridão descalça, dentro da candura do silêncio, com seu vestidinho de prata, sussurrando esperanças no olhar dos amantes.

 Definitivamente a lua está no cio. No meu terreiro não há porcos, há apenas um menino inquieto que tenta driblar o tempo, mesmo com os olhos já gastos. Mas ele ainda se ilude com a noite, deixando essa “superlua” tanger o mistério do seu espírito, a nudez de suas melhores promessas.