"Suicídio"

- O ciúme lançou sua flecha preta...

Foi com esse verso de Caetano Veloso que um defensor renomado iniciou sua tese em um Júri Popular, tentando justificar mais de dez punhaladas que o marido, dominado pela “monstruosa sombra do ciúme”, cometera a sua esposa que dançava com um estranho.

Recentemente perdi um amigo, despediu-se da vida sufocado por um nó bem amarrado na laje de sua casa. Li o bilhete que ele deixou para a família, pedindo perdão a todos e anunciando que não aguentava mais viver um cotidiano sem fôlego.

Criaram-se várias teorias para explicar seu suicídio: “Ele não aguentou tanta traição da mulher”; “Tinha muitas dívidas no trabalho”; “A pressão da sociedade e da família era grande para que ele largasse a esposa”. No entanto, todos reclamavam de sua “cabeça fraca”, da sua “fragilidade”, um “egoísta” que “não pensou nos filhos”.

No cortejo fúnebre, muitas pessoas bateram palmas bem exaltadas. Um senhor, bem atônito com a saudação, lamentou indignado, como se fosse grande o pesar do ato do falecido, sendo absurda qualquer reverência.

Acho que não é o ciúme que lança as flechas, mas a paixão. É ela que também perfuma não só o amor, mas o desejo pela vida. Quando ela nos falta, seja por que costumamos usar um escudo maior do que nós, seja por que ela nos erra e deixa de nos atormentar, esvazia nossa sede e muitas coisas deixam de ter sentido, inclusive seguir em frente.

Olhos bonitos o de Dona Ana, funcionária do Fórum onde trabalho, que repetiu várias vezes que meu amigo teve uma vida feliz, estava tão bonito no cachão, quase sorrindo. O padre, na missa do velório, em sua homilia, disse que Deus perdoa qualquer pecado, inclusive o suicídio, pelos méritos da sua paixão e da sua própria morte. Verdade, padre, mesmo sendo por motivos diferentes, Deus escolheu morrer e com uma paixão intensa.

Não tenho coragem e nem motivo para o suicídio, mas confesso que me agrada quando o laço da poesia me sai caro, mesmo quando me sufoco em cada palavra que me penduro.

Termino estra crônica na travessia entre Petrolina e Juazeiro, a “flor do Chico” que Caetano Veloso tão bem cantou. No entanto, apego-me a outro verso: “tudo é perda, tudo quer buscar...”. Confio no teu sorriso, que o céu lhe seja outro, meu amigo!