"Siga os cachorros"

Descobri que há um cachorro tentando seduzir minha bela cadela Milly. Mal se ergue o alvorecer e ele já urinou a calçada de casa, balançando o rabinho em sua ousada sentinela. Desconfio que pela fenda da porta, com muita persistência, houve toques desesperados de unhas, pelos e gemidos indecorosos.


Minha função matutina é defender a virgindade de uma formosa labradora já prometida para outro de sua raça, de sua cor, capaz de gerar lindos e perfeitos filhotes. Assim, vestido de uma mistura entre Bruce Lee e um déspota, disparo contra o cão: pedras, vassouradas, ameaças de chutes e palavrões variados.


Tenho outra preocupação, é preciso ter cuidado, acho que ela está gostando do cão desmilinguido. Percebo que ela tem frequentado a sala da frente com mais habitualidade, cabisbaixa, lançando um olhar distante, como se ela estivesse suspirando uma espera.

Nesta quarta-feira chuvosa, fiquei surpreso com a teimosia do cachorro. Totalmente encharcado, desfilava promessas amorosas, arriscando sua paixão nas margens da tempestade.

Tentei expulsá-lo, mas a chuva fria fez recuar meu corpo agasalhado. Minto. Foi o olhar destemido do pequeno cão, fitando-me, desafiando-me, como se dissesse: “vem para a rua também, desperta tuas asas na vertigem do improvável, atire-se enquanto pode!”.

Lembrei-me de um amigo da faculdade que planejava fazer um romance, mas que apenas tinha certeza da frase final do livro: “siga os cachorros”. Agora compreendo a anarquia de meu amigo e parece um bom caminho.