"Procura-se uma caveira"

Ainda sinto uma certa angústia quando vejo minha máquina de escrever alemã sem duas teclas, arrependo-me tanto de tê-la emprestado a um evento cultural de minha cidade. É verdade que quase não a utilizava, mas perdi a elegância de algumas manhãs de domingo, quando meus pequenos dedos se atiravam em cada letra do poema, exigindo uma coragem delicada e uma respiração que soprasse uma brisa lírica e precisa.

No entanto, acabo de receber, da jovem que cuida do meu filho, uma notícia muito triste, enlutando toda a minha biblioteca. “Edmar, estou aflita, já procurei a sua caveira em todas as caixas do colégio e ninguém sabe dela. Perdi as esperanças, sei que errei, se quiser pode descontar do que eu recebo”.

Que valor poderia ter uma caveira de gesso, uma companheira que ouve, com ternura, minhas crônicas e meus textos para o teatro há mais de quinze anos, sempre atenta a cada frase ou verso, seja em voz alta ou no empurrão de soluços, quando não dá para segurar o choro do corte afiado da poesia.

Estou atônito, no primeiro momento pensei em confeccionar cartazes, panfletos desesperados que se colam em postes, talvez com o seguinte anúncio: “Procura-se uma caveira, uma caveira feita de gesso e envernizada com poesia; procura-se uma caveira que conhece os detalhes de todos os meus segredos e minhas queixas, mesmo quando pousam em meus olhos nuvens quiméricas; procura-se mais do que uma amiga, um pedaço de mim que tanto brindou comigo doses fardas de uísque e insônia... que já me viu dançar de prazer ante ao nascimento de um personagem que é melhor do que eu... e que até já me perdoou quando a ameacei em jogá-la pelo vão da calçada, compreendendo os palavrões de quem não se conforma por ter errado a mira da poética”.

Escrevo esta crônica sentindo um vazio, não querendo acreditar que ela esteja nos cuidados de outro. Não há pior castigo do que a ausência, jamais poderia cedê-la a uma feira de ciências escolar, imagino o vexame que ela passou com as explicações científicas de sua arquitetura óssea. Logo ela, acostumada com a elegância de Neruda e Proust, dando vida a curva de seus raros silêncios inquietos.

E agora, como responderei, por exemplo, a mensagem da bela atriz Nana, enviada nesta madrugada, queixando-se de sua orfandade cênica, chorando suas “pitangas”, desejando a luz da penumbra do tablado. Como direi a ela que sempre escrevi para o teatro quase abraçado com a minha parceira, com a testemunha de seus olhos, ora de aprovação, ora de desdém. Pelo menos, as letras que me sobraram da minha máquina de escrever me permitem dedilhar a palavra que, neste momento, mais me atormenta: “saudades...”. Sem esquecer as reticências, vai que um dia ela volta.