"Poesia não é cupido"

- Dei um livro de poemas ilustrado... ela parece que gosta dessas coisas de arte, quem sabe rola alguma coisa.

Quando o meu colega de faculdade revelou-me sua estratégia amorosa, trouxe consigo uma expressão que endurecia o seu olhar brilhoso, congelando também o seu semblante, como se quisesse exibir seu intento junto com o corpo.

Sei que as flechas da poesia facilitam as pretensões amorosas, muitas vezes são minha única munição. No entanto, ultimamente, costuma-se embalar tudo, inclusive a poética. Tenho medo dessa engenharia, há quem diga que o caminho para o inferno está pavimentado de boas intenções.

A poética nutre-se de todos os lugares, mas tem seus caprichos na hora do pouso. Certa vez, quando ainda era professor na universidade, tentei incentivar a produção textual recitando poesias líricas. Quando li alguns versos de Fernando Pessoa, um aluno interrompeu-me: Devagar professor, essa aí é moral, vou copiar no meu celular e mandar agora uma mensagem para a patroa de casa. li, quase soletrando, o belo verso português: Quando te vi amei-te já muito antes: Tornei a achar-te quando te encontrei.

No outro dia, encontrei meu aluno sisudo e perguntei o que tinha dado errado com a poesia – Professor, até agora a patroa me olha com o canto dos olhos, quando cheguei em casa ela me perguntou se eu estava aprontando na rua, questionando por que tinha enviado o poema, nunca tinha mandado versos para ela. Deu errado, professor!

Hoje, Marcos Cesário preparou o meu desjejum: suco de açaí, pão com atum, coca-cola e a leitura de um belo texto de Exupéry, dizendo, com elegância, que o teórico, muitas vezes, acredita desprezar o sonho, a intuição e a poesia, não percebe que essas três fadas se fantasiaram para seduzi-lo como a um apaixonado de 15 anos.

Sei que podemos encantar o mundo com a palavra, inclusive a moça bonita que gosta dessas coisas de arte. Porém, é prudente advertir que a poesia, como deve ser qualquer fada, alimenta-se do mistério do feitiço e, diferente do cupido, a mira é enviesada, não há garantia de sucesso, mesmo que o desassossego brilhe nossos olhos.