"Olhos desterrados"

Estou com ressaca doutrinária, terminaram as avaliações do semestre. Apesar do alívio, tenho o mesmo medo de Manoel de Barros, pois muita informação acumulada pode fazer perder o “condão de adivinhar”. A academia tira de nós as irresponsabilidades, como se não mais pudesse “ficar de tarde, sentado na canoa, amortizando o vento”.

Foi em um estado de “amortizar o vento” que encontrei um acusado de roubo majorado durante uma audiência no Fórum onde trabalho. Chamei-o por mais de três vezes para iniciar o seu interrogatório, mas ele ficou inerte, como se estivesse levitando nas margens do seu próprio mundo, remoendo paisagens só suas.

Quando percebeu que eu o chamava, confidenciou-me: “Estava longe, estava longe, Doutor! Meu pensamento estava desterrado, a única coisa que o homem não domina é a imaginação, deixa a gente desraizado”.

Cativou-me a frase do rapaz, de repente, eu que me senti um criminoso, furtando-o de sonhos tão distantes para enraizá-lo em um interrogatório inquisitivo, com perguntas sem sentido para seu mundo onírico. Pouco importava para ele qual o seu nome completo, quando nasceu, se ingere bebida alcóolica ou qual é sua religião.

Não fiquei até o final da audiência, ruminei a frase do interrogado por um bom tempo, acreditando que talvez as coisas mais importantes sejam aquelas que nos deixam “desraizados”. Acho que já tenho a resposta quando chegar a hora se subir os degraus do céu e São Pedro fazer sua pergunta costumeira: “Meu filho, o que você fez de bom, qual o seu inventário?”.

- Desterrei muito, São Pedro!

Creio que a resposta cai bem. Eternizamos quando ficamos distante do lugar comum cheio de raízes, quando abrimos a gaiola do mundo solene cheio de regras e compromissos. Não sei o que pensava o rapazola, talvez imaginasse um testamento feito de um encontro distraído de mãos ou um abraço bem demorado, pastoreando lembranças e sentimentos alados.

Alguns dias atrás, meu colega Adão lamentou o comportamento da nossa turma do Curso de Direito. Com a iminência de se tornarem bacharéis, estão se esquecendo da nossa mesinha de bar, preocupados em serem sérios doutores de terno e gravata.

Nesta tarde, investi seriamente no meu inventário. Perdi a conta de quantas vezes corri, com meu filho Caio Arthur, atrás de nossas sombras, sem perder, em momento algum, a esperança de abraçá-las. Depois, embaixo do pé de seriguela, brincamos de riscar o pedaço de sol que caia da fresta das folhas. Emudecidos, apenas se ouvia o rastro dos nossos dedos infantis e, às vezes, o riso do sol quando caminhava entre nossos olhos desterrados.