"Olhando o tempo"

Lembro-me de um passeio com o poeta Antônio Franco nas ruas estreitas de Coimbra, nosso deslumbre com os andares dos prédios antigos, o charme das varandas de madeira e de ferro forjado, tão próximas, imaginando o passado de uma intimidade nas alturas: os fuxicos, as juras de amor, intrigas ou olhares demorados. No final, lamentamos o silêncio e o vazio das janelas, do outrora que se foi.

Escrevo esta crônica ouvindo uma bela canção portuguesa, escrita por Carlos Carranca, dizendo-me que “era uma vez... só uma vez aquela idade”. Confesso que sinto o desconforto da pressa do tempo, desfolhando muitas quimeras. No entanto, acho que não nasci no outono em vão, acredito que o nosso espírito é parecido com os belos Ipês, permitindo que a fúria do vento lhe deixe nu para que possa florir.

Isso mesmo, os ponteiros do tempo não são lâminas milimétricas, pelo contrário, são um simples alerta, anunciando que os dias não servem para contar, mas que a brevidade das flores e das horas exige entrega e delicadeza.

Acho que, mesmo na timidez, olhar o tempo com encanto é um bom começo...