"Oi, Mor"

- Desta vez, Edmar, acabou. Vou pegar minhas roupas. Não aguento mais!

Tenho um colega que, com frequência, compartilha comigo essa decisão melodramática com seu noivado. Toda vez que rompe a certeza do “desquite”, sobe em cima de sua moto e, com aquele semblante que a gente aprende nos filmes de faroeste, deixa um rastro de poeira amargurada. No entanto, na segunda-feira, encontro-o sempre com um riso renascentista que denuncia o insucesso da dissolução, sem perder a pose:

- Rapaz... foi por pouco... eu ia terminar mesmo, mas ela não me deixou ir embora... disse que me amava, pediu uma chance... viu que eu estava certo, não ia mais ter crise de ciúme... chorou... sabe como é, né?

Faz tempo que acompanho a querela deste meu amigo. Certa vez, quando eu ainda lecionava à noite na faculdade, às vezes ele ia comigo e íamos para um barzinho tomar uma cerveja depois da aula. O toque do celular era óbvio e implacável, mas houve um dia em que a conversa telefônica foi, no mínimo, inusitada.

- Oi, “Mor”! Já tomou o remédio, bem. Eu tou aqui na frente de casa sentindo uma brisa boa, tá um calor danado hoje... Como? Ligar a televisão? Não, “Mor”, quero não, não estou afim de barulho... Hum!? Quer saber o que está passando nos canais da televisão? Não acredito... está desconfiando de mim, “Mor”? Acha que eu não estou em casa?

Meu amigo acuado, sem olhar para mim, torceu levemente o pescoço e atirou seus olhos para o chão, procurando algum consolo.

- É duro, Edmar, é duro!

Depois o celular tocou por mais três vezes, tinha que resolver esta pendência, não atendê-lo seria uma confissão de culpa.

- Oi, “Mor”! Que dia meu “Morzinho” vem aqui me ver?... ainda com essa besteira de televisão... sabe de uma coisa, eu vou é dormir e pronto... Quer saber mesmo o que está passando? Só para você me deixar em paz eu vou ligar essa peste... pronto! Tá passando o jogo do Vasco com o Curitiba! Satisfeita! Não vou botar nos outros canais por que até a peste do controle eu perdi com essa presepada sua! Boa noite!

Aborrecido, olhou-me desconfiado, mas, pelo menos, engoliu meio copo de cerveja, assistindo ao jogo de futebol que passava no outro bar, com o benefício da dúvida ao seu favor, o chamado “in dubio pro reo” do Direito Penal. Infelizmente, tocou novamente o celular.

- O que foi desta vez, “Mor”? Como não?! Não tá passando o jogo do Vasco? Tá passando o jogo do Flamengo? A peste do jogo do Vasco é no canal fechado?! Não precisa dizer, eu sei que não tenho canal fechado... “Mor”, ei “Mor”... desligou. Peste! Deu errado!

O silêncio imperou até que eu pagasse a conta e regressássemos para o nosso vilarejo. Entretanto, não lhe poupei de conselhos, ele deveria ter dito a verdade desde o início, não haveria problema algum tomar três cervejas ao final da noite para relaxar o cansaço do dia. Acontece que, em menos de uma semana, lá estava ele na minha companhia em outra cidade, tomando chope na orla, quando o celular tocava insistentemente. Ouvi o início da conversa antes que ele se afastasse.

- Oi, “Mor”... estou aqui com o Edmar e uns colegas na orla tomando uma cervejinha enquanto a aula não começa...

Após cerca de quarenta minutos observo meu amigo atirar seu aparelho telefônico no rio.

- Sabe de uma coisa, “Mor”, vá brigar com os peixes, peste!

Antes que eu dissesse alguma coisa, também disparou contra mim.

- Você também é culpado, Edmar. “Diga a verdade”! Ai... ai... Deus dá a farinha e o a peste do Cão rasga o saco.

Tentei consolá-lo com uma frase de Clarice Lispector, mais ele me interrompeu abruptamente:

- Psiu! Poesia agora não! Para quem está no inferno só resta abraçar o Cão! Amanhã pego minhas roupas, não aguento mais.