"O teatro de Coimbra"

Era para ser apenas uma peça cênica. Na maioria das vezes, um espetáculo de três horas provoca mais o sono do que qualquer outra coisa. O tamanho do título já denunciava o desafio que meus olhos teriam pela frente: Da sensação de elasticidade quando se marcha sobre cadáveres.

Não foram poucos os cochilos, mas me cativou o poeta que se recusava a escrever poemas patrióticos e resistia ao horror do cárcere criando um mundo absurdamente onírico, libertando sua alma e sua própria dignidade.

Nos intervalos de cada ato, refugiava-me para o café e fazia uma prece surreal para Dionísio, erguia uma taça de vinho à saúde da existência daquele personagem excêntrico e boêmio que, embora cercado e mutilado por uma estreita cela, disparava poesias, anedotas, fumaças e seu coração.

No encarte da peça, o dramaturgo Matéi Visniec afirma que “a literatura não é mais do que o espelho do homem e dos seus sofrimentos, das suas dúvidas e dos seus combates”. Em uma das melhores cenas, o poeta Sergiu Penegaru, entusiasmado, conversava com seus amigos escritores imaginários, dentre eles, Proust, Camus e Lonesco.

Tenho algumas dúvidas se a literatura é a parte visível do espelho, mas naquela noite fui fisgado pelo reflexo daquele tablado. Ao sair do teatro, percebia algumas celas dentro de mim, e, aproveitando os passos incertos por causa do vinho generoso, retornei para o apartamento que estava hospedado palestrando, em voz alta, para os espectros que encontrava nas ladeiras e escadarias de Coimbra.

O caminho era longo, solitário e frio. Era preciso marchar sobre tanta coisa... ainda bem que eu estava em boa companhia e tinha asas no meu riso...