"O grito"

*O Grito foi o resultado de uma oficina teatral promovida por Edmar Conceição (dramaturgo) e Erick Naldimar (diretor cênico) com um grupo de aproximadamente trinta atores. Foi utilizada a técnica “teatro de recortes”, utilizando também texto e músicas de outros autores para compor a dramaturgia. A cena escolhida tem textos de Renato Russo, Cazuza, Millôr Fernandes e Brecht, dentre outros. A cena dos locutores é uma adaptação de Edmar Conceição de um texto anônimo. Aos leitores, disponibilizo um fragmento.

 

 

POLÍTICA

Trevas. Música leve.

VOZ – Meus senhores, minhas senhoras, antes de continuar esse espetáculo é necessário que façamos uma advertência a todos e a cada um. Neste momento, achamos que cada um tome uma posição definida, sem que cada um tome uma posição definida é impossível continuarmos. Seja para a direita, seja para a esquerda, tome uma posição. Se for neutro, cruze os braços, mas tome uma posição e fique nela. Por que, senão, companheiros, as cadeiras do teatro rangem muito e ninguém ouve nada.

Música: Metal contra as nuvens – Legião Urbana. Luz no painel direito.

MULHER II - Não me convidaram pra essa festa pobre que os homens armaram pra me convencer, a pagar sem ver toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer.

MULHER I – A burguesia fede. A burguesia quer ficar rica, enquanto houver burguesia, não vai haver poesia.

Entra em cena o poeta Bicho

POETA BICHO - Vi ontem um bicho na imundície do palanque. Quando sai às ruas e via crianças catando detritos nas calçadas... não aparava, nem ajudava: engolia com voracidade. O homem não era humano. Não tinha sentimentos, não tinha piedade. O homem, Meu Deus, era um rato.

Entram em cena dois desempregados e sobem nas caixas.

DESMPREGADO I – O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. 
DESEMPREGADO II - Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio, dependem das decisões políticas. 
DESMPREGADO I – O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.

DESEMPREGADO II - Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.

DESMPREGADO I – Nada é impossível de Mudar. Desconfiai da sua própria sombra, examinai o que parece rotineiro, não aceiteis o que é de hábito como coisa natural.

DESEMPREGADO II - Pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.

(...)

DESMPREGADO I – Toda vez que um justo grita, um carrasco vem calar.

DESEMPREGADO II – Quem não presta fica vivo, quem é bom mandam matar.

DESMPREGADO I – Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural.

(sai de cena)

DESEMPREGADO II - Nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.

Luz no painel frontal e direito (coreografia da música)

MULHER II – Não me elegeram chefe de nada, o meu cartão de crédito é uma navalha. Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim.

MULHER I – Brasil, qual é o teu negócio? O nome do teu sócio? Confia em mim.

Recitando

MULHER II – A burguesia não repara na dor da vendedora de chicletes. A burguesia só olha pra si. A burguesia é a direita, é a guerra. A burguesia fede, a burguesia quer ficar rica. Enquanto houver burguesia, não vai haver poesia.

MULHER I – Vamos acabar com a burguesia. Vamos dinamitar a burguesia, vamos pôr a burguesia na cadeia, numa fazenda de trabalhos forçados. A burguesia fede, a burguesia quer ficar rica. Enquanto houver burguesia, não vai haver poesia.

Música da seleção Brasileira. Sons de apitos e urros de torcidas. Entra em cena dois locutores de rádio trajados de chuteiras e roupa de juiz.

LOCUTOR I – Começa o jogo da nossa vida.

LOCUTOR II – É a política brasileira em campo.

LOCUTOR I – A craque da bola começa com Getúlio Vargas.

LOCUTOR II – Ele abre os braços e pede apoio do povão.

LOCUTOR I – É isso mesmo, esse aí sabe agitar a galera.

LOCUTOR II – Lá vai Getúlio, passa pelo café com leite, passa pela intentona comunista, passa também pelo congresso.

LOCUTOR I – É impressionante, ele não toca para ninguém.

TODOS – Fominha, fominha!

LOCUTOR II – Agora ele chega na cara do gol.

LOCUTOR I – Vai chutar pro gol.

TODOS – Uhhh!

LOCUTOR II – Foi um tiro que saiu pela culatra, pra fora!

LOCUTOR I – O Getúlio já era, mas com esse chute sem dúvida ele ficou para a história.

LOCUTOR II – Entra o Dutra no lugar

LOCUTOR I – Mas não faz nada, que vergonha.

TODOS – Tira! Tira! Tira!

LOCUTOR II – Agora é a vez do Jucelino.

LOCUTOR I – Esse aí parece que é o cara.

LOCUTOR II – Armou a jogada de Brasília.

LOCUTOR I – Que lindo lance.

LOCUTOR II – Epa! Epa! Os americanos entraram no campo.

LOCUTOR I – Adeus as Ferrovias!

LOCUTOR II – O jogador foi comprado,

TODOS – Mercenário! Mercenário!

LOCUTOR I – Entra nas quatro linhas Jango.

LOCUTOR II – Mas ninguém toca pra ele.

LOCUTOR I – Fizeram uma panelinha dentro de campo.

LOCUTOR II – Os militares são os donos da bola.

LOCUTOR I – Castelo Branco toca para Costa e Silva

LOCUTOR II – Costa e Silva toca para Médici

LOCUTOR I – Médici toga para Geisel.

LOCUTOR II – Geisel toca para Figueiredo.

LOCUTOR I – Não acredito, parece que eles tão ganhando alguma coisa.

LOCUTOR II – Nunca vi tanta cera. Minha gente, o povo quer é gol!

LOCUTOR I – O pior que a torcida não pode dizer nada.

LOCUTOR II – Isso mesmo, é expulso do estádio ou vai pra cadeia.

LOCUTOR I – Parece que tem alguém se aquecendo.

LOCUTOR II – É o Tranquedo Neves.

TODOS – Vai Tranquedo, vai Tranquedo!

LOCUTOR I – Mas parece que ele se machucou, não vai entrar não.

TODOS – Ahhhh!

LOCUTOR II – Desfalcou o Brasil, que entra é o reserva Sarney.

LOCUTOR I – Finalmente um civil no time.

LOCUTOR II – Sarney toca para Collor.

LOCUTOR I – Collor botou a mão na bola, isso não pode.

LOCUTOR II – Ele foi expulso de campo.

TODOS – Porra, Caralho, puta que pariu, se o Collor fica fora é melhor para o Brasil.

LOCUTOR I – Outra substituição, vai entrar Itamar.

LOCUTOR II – Ele presta atenção mais no topete do que no jogo. Não vai dá para ele. Ele sai de campo de Fusca.

LOCUTOR I – O povo pede o FHC.

LOCUTOR II – Uhh! Terror, FHC é matador!

LOCUTOR I – FHC toca novamente para FHC.

LOCUTOR II – Outro fominha no meio de campo.

LOCUTOR I – Ele ameaçou privatizar o estádio.

LOCUTOR II – Mas parece que o Lula roubou a bola.

LOCUTOR I – Entra na grande área, vai chutar.

LOCUTOR I – É goollll, goooolllll! (jogam confetes, fazem barulho)

LOCUTOR II – Vaiiii que é tua companheiro.

LOCUTOR II – Lula-lá é o nome dele. (música Lula-lá)

LOCUTOR I – Gol do Brasil!

LOCUTOR II – Ou será que foi contra!

TODOS – Só o mensalão nos irá dizer.

LOCUTOR I – Este é o raio X de nossa sociedade. Urge mudá-la não com mensagem de utopia caipira, mas como fator de sobrevivência e antídoto.

LOCUTOR II – É preciso que o sábado seja sábado, e o domingo seja um ato de liberdade, amor e integração familiar.

LOCUTOR I – É preciso extrair a seiva da vida, antes que ela nos supere, nos transformando em objetos.

LOCUTOR II – Não há quem nos ajude, somos nós os nossos analistas. A vida está inserida em nosso universo particular.

LOCUTOR I – É preciso superar e assumir.

I LOCUTOR II – É preciso começar a viver, porque a morrer já começamos muito.