"O embalo da poesia"

Boa parte das minhas crônicas ganha relevo numa mesinha de bar. Parece estranho, mas consigo uma solidão e uma criatividade peculiar no meio de altas gargalhadas, jogatinas, palavrões e umas ladainhas musicais de mau gosto que estão na moda, inspirando um rebolado bem sensual, girando o bumbum com uma indecisão rítmica, como se pudesse avançar recuando.

Estrategicamente escolho um cantinho discreto, mas corro risco de uma saudação pegajosa de um ébrio, querendo pegar dezenas de vezes na minha mão depois de sair do banheiro sem água na pia.

Ontem, na ausência de um assunto para escrever, escolhi o mesmo itinerário: meu canto cativo, cuba libre com muito gelo e bloco de anotações. Não demorou a aparecer um desses iluminados que, além dos clássicos apertos de mão, pediu para sentar uns eternos minutinhos. Acuado para não ser deselegante e, amaldiçoando a sorte, tentei ouvir o proselitismo do senhor grisalho.

­- Sei que você não está lembrado de mim... sei também o que você está escrevendo... também já fiz poesias de amor, nunca falhava, já fui bom de caneta... sabe quem é a...

Depois de narrar umas três aventuras amorosas, incluindo nome, sobrenome, endereço e alguns detalhes picantes nos dotes físicos das suas musas, pairou sobre nós uma neblina silenciosa, suficiente para ele se erguer e abandonar a conversa, retomando seus passos trôpegos. Quanto a mim, folheei com cuidado meu bloquinho, percebendo alguns versos e palavras soltas, como se estivessem de molho, esperando o tempo exato da cria do poema.

Há aproximadamente quinze anos, também tinha fama de um calibre poético certeiro. Com frequência, um colega de colégio, batia na porta de casa para pedir um bilhete de amor para a namorada aborrecida com suas “traquinagens viris”. Lembro bem uma de suas recomendações:

- Elogia de novo o sorriso dela, ela gostou da última vez quando você colocou aquela metáfora de pétalas... mas elogia devagar pra ela não ficar se achando e me rebaixar demais.

Duas horas após ele retornava para reescrever a carta com sua letra inconfundível. Gostava dessa minha filantropia romântica. Apesar da pieguice sem tamanho, iniciava-me na escrita seguindo os passos do lirismo.

Por vezes, o boêmio que também fazia poemas de amor fitava-me, como se ainda faltasse me dizer algo. No entanto, retornava para seu mundo imitando a moça da outra mesa, dançando um “arrocha” que exigia uma mão no nariz e a bunda em todos os ângulos possíveis.

Voltei para uma nova página do meu caderninho, acreditando na minha mira poética, ora colhendo lembranças, ora vislumbrando desejos. Não sei como, mas ri ao perceber que meus textos também arriscam um rebolado impreciso, dissolvendo-se e recompondo-se a cada recuo e avanço dos meus dedos. Porém, antes que alguém diga, perversamente, que escrevo no embalo do “arrocha”, adianto que ainda prefiro a angústia de um samba canção tímido, arrastando-se devagar com as cordas da quimera, mesmo quando o fôlego se perde no cio da escrita.