"O chumbo e o sonho"

Recentemente, próximo ao dia dos namorados, a esposa de um amigo fez um refresco de laranja para ambos. Ainda no primeiro gole, o sabor não lhe agradou e largou o copo na mesa. Irritada, sua esposa bebeu o suco com voracidade. Pouco tempo depois, ele se encontrava chorando na frente do hospital, preocupado com sua esposa internada e tentando imaginar por que ela tinha colocado chumbinho no refresco.

Não é incomum episódios como este, certo dia, folheei alguns processos da Vara Crime na qual trabalho e percebi uma verdadeira mitologia grega. Alguém se joga da ponte, ateia fogo no seu amor, estrangula a mulher e depois se enforca, retalha o rosto da suposta amante ou exibe uma arma de fogo pelas praças públicas, anunciando que vai acabar com o mundo, que existir não faz mais sentido.

Embora Sartre tenha dito que o inferno são os outros, prefiro defender que o inferno depende dos nossos olhos. Ultimamente o facebook tem sido uma ladainha de pessimismo e de pequenos infernos, todo segundo alguém publica que o a Copa do Mundo é uma conspiração quase diabólica, O PT é uma legião de capetas corruptos e as mulheres mudaram, estão cada vez mais ardis, munidas até de chumbo. Lembro sempre de Nelson Rodrigues, dizendo que não se ganha no sexo, no futebol ou na política com boas intenções.

Acho que damos importância demais com as feridas. Escrevo esta crônica no alvorecer junino. A alvorada me acordou com seus fogos, berros etílicos e uma fanfarra animada pedindo para a “rosa dos ventos” carregar a procissão profana para a folia. Engraçado, a pequena multidão lembrou-me de Dom Quixote, da quimera em tempos difíceis. Não quero uma escrita “resmungona”, que ela seja atenta ao acaso, como a estrela quase matutina que vejo agora, amanhecendo tanta coisa em mim, tanta coisa além desta gritaria, além desta janela.

Tenha no “drink” álcool ou chumbinho, asseguro que é preciso mais do que nunca sonhar.