"O choro liberta"

Ainda consternado, um amigo confessou-me que vendo o sofrimento da mãe se alongando por anos em cima de uma cama, conseguiu coragem suficiente para pedir que ela partisse, prometendo não chorar mais. Poucos minutos depois ela faleceu.

Após várias buscas pelas ruas da cidade, a delicada filha do Ramalho, tenta superar a perda do seu gatinho: “papai, acho que o Sardinha não morreu por que ele está na minha mente e no meu coraçãozinho”. A Lincinha garante que ele está feliz em algum lugar e, desenhando o nome do gato na porta do quarto, disse que não ia chorar mais.

Cada vez mais tenho aprendido a me encontrar com minhas perdas e meus prantos. Também desejei que meu pai partisse quando ficou insustentável a ferida do câncer e, depois que ouvi seu último suspiro, acreditei que ele foi para o céu de trem. Vários gatos desapareceram misteriosamente do quintal de minha infância e, mesmo olhando para o muro com quimera, desenhava no chão, com giz e lágrimas, o paraíso encantado dos felinos.

 No entanto, é difícil represar as lágrimas da partida. Às vezes o choro não significa remoer as cicatrizes, muitas vezes ele liberta. Agora mesmo, termino essa crônica com o lento despertar da manhã, ouvindo o canto solitário de um pardal encolhido no meio de um orvalho melancólico, como se o céu chorasse por ele. Lembrei-me de algumas despedidas e meus olhos acompanharam a garoa lenta. Depois que ele foi embora batendo suas asas tristes e delicadas achei mais bonito o voo dos pardais. Fiz o mesmo.