"O batismo na pingueira"

Ainda me incomodam os arranhões espalhados nos meus braços, mas nem o corte do capim afiado, nem a ardência das urtigas e nem os espinhos que se multiplicavam na mata fechada, intimidam o riso cravado dentro de mim, como se florasse uma brisa nos meus lábios.

Tudo isso para encontrar uma cachoeira tímida, apelidada de “Pingueira”, dentro de um pequeno sítio que adquiri junto com alguns amigos.

No dia anterior, na minha colação de grau, erguia meu braço sem cicatrizes, jurando, em voz alta, “acreditar no Direito como a melhor forma para a convivência humana”.

Receio que jurei em vão. Bastou-me deitar na pedra escorregadia da Pingueira, ungido pelas fileiras da água fria que tocava no meu corpo suado e ferido, alcançando a imensidão do vale que abria janelas nos meus olhos, para que minha fé brotasse nas fendas da grota.

Sei que estamos em tempos de atrocidades, que é preciso que a justiça “se fortaleça” e “socorrer os que dela precisarem”. No entanto, pressinto, neste momento, promessas de cantoria de um pintassilgo e um coral de cigarras, mistérios da jaqueira centenária, abacateiros florando meus passos e fogueiras ascendendo confissões.

Mal dormi na noite passada, deslumbrado com a grota, com as poesias feitas na sombra da mangueira, com os abraços demorados no cajueiro, com as “estórias noturnas” cheias de lendas, anedotas e causos de assombração.

Certo dia, quando Seu Zé Roberto soube que seria meu vizinho de roça, quase pulando, pediu-me um abraço e revelou seu contentamento com o mais novo “groteiro” dizendo: “agora somos irmãos!”.

Verdade, Seu Zé Roberto, depois do meu batismo no alto da “Pingueira”, acho que perdi a condição de ser filho único e tenho a impressão que vai perdurar essa primavera delicada que abre as pétalas de um menino que se pendura nos galhos da quimera.