"Delírios de desvarios de um cronista*"

O meu país tinha um território bem delimitado: o meu quintal. Era um quintal enorme, com uma parte de cimento e outra parte de areia; também tinha uma laje e muitas árvores que me ajudavam no meu ‘faz de conta’, nas minhas imaginações”, relembra o cronista e dramaturgo baiano, Edmar Conceição, em Iludidos*.  

 

Edmar, como posso dizer... é o cronista do “delírio”, do “desvario”, do “devir lírico”, expressões sempre presentes em sua fala e escrita. Casado com a bela Joana, pai do imaginativo Gabriel Vinícius e do pequeno Caio Arthur, e filho da alquimista dos temperos, Quezinha, o escritor de 40 anos também encontra certa inspiração nos acontecimentos, nem sempre tragáveis, que pairam sobre a esfera judicial, aos quais se empenha, com um toque de diplomacia, como Oficial de Justiça.

 

Com um humor sutil e atraente, sempre aliado à poesia, Edmar Conceição vai dando mostras de como vê o seu cotidiano e como lhe ocorre a escrita, na escrita, que também lhe ajuda a dar vazão aos dissabores que não escapam a ninguém. Edmar está sempre por aqui, pelo Escrítica, mas desta vez ele está um pouco mais, revelando o seu devir poético diretamente aos olhos do leitor. Antes que ele próprio o diga, vale ressaltar que existem coisas que só acontecem com Edmar, coisas de Edmar, quem convive com ele pode atestar. A pomba do Espírito Santo que o diga.

 

 

Emiliana - Acredito que não seja possível começar uma entrevista com você sem mencionar primeiro os seus “delírios” e “acriançamentos”, tão presentes em suas crônicas. De onde eles vêm?

Edmar - Acredito que eles vêm do mesmo rastro dos passos de quem segue o horizonte da escrita. Gosto quando o poeta Manoel de Barros diz que não aguenta “ser apenas um sujeito que compra pão às 6 horas da tarde” e que “é preciso ser Outros”. Acho que o desvario é o sopro da imaginação, onde são sempre possíveis os caminhos inventados, as travessuras líricas de quem não se rende aos ponteiros do tempo. Bem... realmente aposto no delírio e no acriançamento, eles são as asas de quem desconta tudo nas palavras.

 

 

Emiliana – Na crônica “Papéis Avulsos”, você escreve: “Agrada-me muito ver os rascunhos das minhas dramaturgias, da Via Sacra que me fez ler tantas vezes o Evangelho e me convencer que Cristo, muitas vezes, também carregava água na peneira, principalmente quando criava parábolas”. Qual é o teu olhar sobre a religião, a fé, o mistério, enfim?

Edmar- Sou carregado de esperanças (risos), mas, muitas vezes, as religiões me desiludem. Acho que elas apequenam muito o olhar divino. Na adolescência tive umas crises de fé, estudei e frequentei várias religiões por um bom tempo, mas o único saldo que tive foram pesadelos insistentes, fugindo de um Cristo rancoroso com uma foice afiada e gigante. Prefiro o Menino Jesus poético de Fernando Pessoa pregando que tudo vale a pena, que rouba fruta dos pomares, corre atrás das raparigas, ri de tudo e depois adormece no nosso colo. Também acredito no Deus do personagem Zorba de Nikos Kazantzakis, defendendo que Deus não é um açougueiro para ficar com uma espada e uma balança para medir nossos pecados, ao contrário, ele tem uma esponja cheia de água, uma nuvem de chuva que apaga nossos descaminhos. Sou muito cuidadoso com minhas preces, não quero incomodar o criador com qualquer coisa. Olha que perfeito o poema do Mario Quintana: O bicho, quando quer fugir dos outros, faz um buraco na terra /O homem, para fugir de si, fez um buraco no céu.

"Emiliana" – Você acredita que sua infância, muito bem apresentada em tua escrita e no diálogo poético com Marcos Cesário, em Iludidos, o influenciou fortemente no seu envolvimento com as letras?

"Edmar" – Sim, claro. Meus pais e minha vó bancavam e sustentavam minhas invencionices. Desde menino, instigaram-me a acreditar nas fantasias, na quimera dos quintais. Lembro bem das leituras matinais do meu pai, todas as manhã ele sentava na sua cadeira vermelha para ler o mesmo romance. Engraçado, ele lia balançando os pés em um ritmo tão concentrado que parecia voar na leitura. Minha mãe costumava exibir o seu romance com meu pai, feito em trovas e ilustrado com imagens de fotonovelas. Não sei... acho que a infância me deu bons empurrões para a escrita, devo muito a ela o meu desejo de sempre querer se inventar, de transgredir pela via do mundo onírico e de não desistir das palavras.

 

 

 

"As histórias infantis

trazem uma nostalgia doce" 

Edmar Conceição - em Meninices

 

 

"Emiliana" – Antes de abordar as tuas influências poéticas, literárias, acredito que seja imprescindível falar sobre uma personagem da tua própria história, sua mãe Quezinha. O que seria do cronista e dramaturgo, Edmar Conceição, sem a criação de Quezinha?

"Edmar" – O que seria do menino de oito anos que decidiu fazer o seu primeiro poema de amor datilografado se não tivesse sua mãe Quezinha para providenciar uma máquina de escrever e um punhado de folhas de ofício? O que seria do dramaturgo sem as noites não dormidas de sua mãe, seja costurando o figurino dos atores ou confeccionando parte do cenário. Recordo que não podia passar um vendedor ambulante de livros que minha mãe comprava e preenchia aos poucos minha estante de madeira que até hoje me serve. Interessante, assim como eu, minha mãe não sabe elogiar diretamente. Certo dia disse que tirou várias fotocópias de uma crônica que publiquei no Escrítica e como se elas tivessem vida própria disse-me: “Edmar, impressionante a crônica que tirei as xerox, não tem quem não chore!”. Minha mãe me ilude pelas beiradas e eu me aproveito disso.

 

"Emiliana" – E os teus poetas favoritos? Todo mundo sabe que Vinícius de Moraes e Manoel de Barros estão em tua cabeceira. Porque eles? E quais mais?

"Edmar" – Gosto de Vinícius de Moraes por que ele me acerta nos seus poemas, nos seus sambas. Ele consegue, com maestria, ser íntimo e delicado ao mesmo tempo. Acho genial quando ele, por exemplo, diz: “eu te peço perdão por te amar de repente, embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos”. Já o Manoel de Barros me seduz pelo seu olhar “descomparado”, criando grilo no meu ouvido que cantarola a importância do “transver” e que só o “uso da palavra” serve para “compor meus silêncios”. Tenho boas companhias poéticas, minhas leituras são escolhidas por temporadas, mas nunca abandono, por exemplo, Mário Quintana, Rubem Braga, Gabriel García Márquez, Neruda e Baudelaire.

 

 

"Emiliana" – Conta um pouco das tuas experiências na dramaturgia.

"Edmar" – Desde os oito anos, quando arrisquei meu primeiro poema de amor, decidi ser um escritor. No entanto, eu escondia, com o zelo da timidez, o que eu escrevia. Quando o teatro apareceu, meus textos começaram a sair da gaveta, como se no palco pudesse tudo. Minhas primeiras dramaturgias foram feitas para os Festivais de Teatro da Pastoral da Juventude do Meio Popular, promovidos pela Igreja Católica. Foram minhas poucas tentativas de juntar poesia com política. Infelizmente, está cada vez mais difícil de provar o vinho cênico de Dionísio, é complicado trabalhar coletivamente.

 

Lembro que quando fiz a Via Sacra, eu era, ao mesmo tempo, o dramaturgo, sonoplasta, figurinista e diretor de mais de trinta atores. Uma loucura! A trilha sonora era feita em fitas cassetes e, como o dinheiro era pouco, as músicas eram gravadas nos dois lados da fita, exigindo uma habilidade incomum com o giro da caneta para deixar a sonoplastia no ponto. Em uma apresentação, bem na hora da crucificação, que exigia um som forte de trovão acompanhado com um trilha impactante para simbolizar a morte de Cristo, aparece o motorista do carro de som, com aquele sorriso do Judas Iscariotes, mostrando a fita toda solta, amassada, embolada, arrastando-se ao chão. No desespero, tentei recuperar alguma coisa que sobrou da fita, pedi que colocasse no “toca fita” do carro, fechei os olhos e, pela primeira vez, orei com palavrões de toda baixa qualidade em plena Semana Santa. O final não poderia ser outro: um milagre cristão. Por um bom tempo, algumas pessoas, emocionadas, vinham até mim relatando que ficaram arrepiadas na hora do trovão, justamente, bem na “horinha que Cristo morreu”.

 

 

"Emiliana" – Edmar, suas crônicas, pelo menos eu tenho esta impressão e muitas vezes você deixou isso expresso nelas, dão um gosto de resgate daquela boêmia romântica que foi vivida na época de Vinícius de Moraes, Antonio Maria, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, etc. Isso acontece por que você é um legítimo boêmio ou porque você é admirador dos escritores que foram?

"Edmar" – Não, não sou um legítimo boêmio, não chego perto do calibre de Vinícius de Moraes e do Rubem Braga. No entanto, gosto da palavra “boemia”, soa bem, traz uma sofisticação poética, tão diferente do Código Civil que, de forma deselegante, chama de “ébrio habitual”. Confesso que sinto uma inveja enorme quando soube que o João Ubaldo Ribeiro tinha uma cadeira, aperitivo e um copo privativo em um bar do Leblon. A mesa de bar traz um certo fetiche; Vinícius de Moraes disse que quatro ou cinco uisquinhos diários não faz mal a ninguém (risos). Às vezes, fantasio-me de boêmio e sento em um barzinho, coloco uma folha de papel sobre a mesa, peço um drinque e com uma caneta rabisco uma crônica, acreditando em Drummond: “tenho duas mãos” e o “sentimento do mundo”. Mesmo com a inquietude noturna, sinto um transe esquisito e consigo colher raras partes de mim. O Vinícius estava mesmo certo: “O uísque é o melhor amigo do homem, é um cachorro engarrafado!”.

 

 

"Emiliana "– Falando em Código Civil... Como é esta simbiose (se é que este termo cabe) entre o Oficial de Justiça, o estudante de Direito e o escritor? É possível um trabalho de mútua cooperação entre “eles”? (risos)

"Edmar" – Sinceramente, não sei. Por mais que seja animador saber que, por exemplo, Rubem Braga, Vinícius de Moraes e Manoel de Barros, também passaram pelo corredor da faculdade de Direito, acho que a dogmática jurídica acadêmica mais algema do que liberta. Excesso de leis e conceitos corre o risco de deixar a estética insalubre. Por isso gosto de lembrar Machado de Assis: “a melhor definição de amor não vale um beijo de moça namorada”. Mesmo assim, estou com um novo projeto de um livro sobre crônicas forenses, extraídas de algumas experiências como Oficial de Justiça e do contato direto com algumas demandas judiciais no Fórum onde trabalho. Algumas já foram publicadas no Escrítica como “A moça da cela” e “Provas de amor”. Essa cooperação é meio arredia, embrutecida, mas, às vezes, é bom insistir no improvável.  

 

 

"Emiliana" – A boêmia continua a mesma?

"Edmar" – Estamos em tempos difíceis (risos). Às vezes acho um barzinho aconchegante, mesa de madeira, meia luz, copos bem trabalhados. No entanto, logo aparece um rapazola endurecendo o olho e forçando a garganta para embalar um arrocha. Pois é... resta-me talvez uma boêmia fantasiada. Tenho um bar que fica, estrategicamente, próximo a biblioteca, ponho minha vitrola para funcionar, capricho no uísque e brindo com meus fantasmas boêmios. Depois da quinta dose converso bobagens meigas com o Rubem Braga, ouço atento os desabafos de Rimbaud, peço para Neruda recitar um soneto de amor dedicado a Matilde e, aos poucos, vou exibindo meu retrato para Oscar Wilde.

 

 

"Emiliana"– O que te faz delirar poeticamente?

"Edmar" – O desejo de ser lido. Imaginar que alguém, do outro lado, possa sorrir com alguma “estória” boba ou se impressionar com algum parágrafo ou frase mais poética... Quando a insônia invade a madrugada e perturba meus dedos para que eu toque nos meus vazios, escrevo acreditando que minha crônica também tocará no vazio de alguém... Quando a escrita me falta o fôlego e só me resta o pântano das palavras submersas, imagino os olhos de alguém se encontrando em abismos parecidos, cultivando a raiz da escrita.

Notas:

* Entrevista concedida à jornalista Emiliana Carvalho para o site Escrítica.

 

**Iludidos – livreto de crônicas, publicado em parceria com o fotógrafo e escritor Marcos Cesário,

no qual dialogam sobre arte, educação e experiências pessoais, lançado em 2011.

*** Fotografia: Marcos Cesário.