"Doutor Pasta Seca"

Gosto de ouvir as histórias do “finado Elias”, apelidado há décadas, pelos moleques de minha cidade, de “Dr. Pasta Seca”, pois diziam que a inseparável maleta preta que ele carregava não tinha nada, apenas vento.

Apesar do aborrecimento com as pilhérias, ele deixava a garotada subir no seu velho carro, uma rural que funcionava à manivela. Com muito custo, ele conseguia percorrer uns cem metros até o carro “morrer”, depois gritava: “Desce, moçada!”. Meu amigo Antônio Quintino era um dos garotos que disputava, entre socos e pontapés, o direito de empurrar a velha rural. Depois que o carro funcionava, o “doutor”, mais feliz, exibindo seus “dentes de ouro”, novamente gritava: “Sobe, moçada!”.

As “pílulas Maranhão” deram fama ao “finado Elias”; eram remédios santos que curavam qualquer tipo de moléstia, como dores no pé da barriga, disenteria, constipação e moleza no corpo, dentre outras. Ele tinha um misterioso quartinho que chamava de escritório, apenas ele podia entrar, dedicando-se à alquimia da cura.

Tempos depois, descobriram a sua fórmula milagrosa. Na verdade, ele utilizava como matéria-prima “bostas de coelho”, aproveitando-se do formato redondo das mesmas, cobrindo-as com farinha de trigo, até ficarem bem branquinhas para se tornarem comprimidos implacáveis, protegidos por caixinhas artesanais, trazidos, de alguma forma, do Maranhão.

Muitos não acreditaram na injustiça que fizeram com o Dr. Pasta Seca, testemunhos diretos do sucesso do medicamento. Não eram poucos os que diziam: “Elias, minha prisão de ventre melhorou!”. Quando ouvia os elogios, dizem que ele erguia sua coluna vertebral ao máximo, acentuando seu sorriso envaidecido, proclamando, com entusiasmo, sua prescrição médica: “Tá vendo, aí! Não falei? É a fé que cura!”.

Gostaria de ter conhecido o “Dr. Pasta Seca”, acho-me até parecido com ele, apenas não me aborreço quando dizem que costumo carregar vento. Hoje mesmo, escrevo na solidão do meu “escritório”, totalmente “à manivela”, precisando de um empurrão “moleque” para que o texto adquira uma textura bela, como se fosse possível conduzir um frete de ilusões. Quem sabe, cada letra que dedico, nesta crônica, tenha o efeito dessas “pílulas Maranhão”, banhadas com o fermento quixotesco da poesia, acreditando na fé de quem sempre aposta nas palavras.