"Identidades"

*“Identidades” é uma dramaturgia que retrata temas polêmicos como drogas psicoativas e homossexualidade. A dramaturgia foi encenada pela Cia. Teatral O Grito. Aos leitores, disponibilizo este fragmento.

 

 

CENA II

(Música de Cazuza)

Eu tô pedindo

A tua mão

Me leve para qualquer lado

Só um pouquinho

De proteção

Ao maior abandonado

 

EZEQUIEL

A espera não para

A dor não para

O pecado não para

 

SANDRA

A melancolia não para

O tapa não para

A praga não para

 

MAURO

A dose não para

O insensatez não para

O apetite não para

 

TODOS

Porra! O tempo não para!

 

(Neste momento os personagens falam com seus pais, como se eles estivessem realmente no palco)

 

EZEQUIEL

Pai, quero falar algo importante

Não, não é sobre isso

Tenho medo de falar

Antes de qualquer coisa quero dizer que te adoro

Calma, pai, já vou dizer

Faz tempo que quero dizer isso...

Eu tô amando alguém

É melhor o senhor só ouvir. Por favor, é importante.

Eu amo um cara, pai!

Como não entendeu?

Eu amo um homem.

Pai, as coisas não precisam ser assim

Eu não vim pedir o seu consentimento

Não adianta ameaças, entenda, é maior do que eu

E daí? Pouco importa o que falem

Sou e pronto. Qual o problema?

Isso mesmo: bicha, gay, boiola, viadinho...

Não mande eu calar a boca, eu não sou doente!

Pro inferno a sua reputação!

Como o senhor queira, meu pai

Ok! Tá bom, não lhe chamo mais de pai.

Só quero dez minutos, dez minutos eu arrumo minhas coisas.

 

TODOS

O tempo não para

 

SANDRA

É melhor eu contar logo

Você vai acabar sabendo mesmo

Não, não é isso!

Engraçado, você pouco olha pra mim

Não conhece nada de mim

Mãe, vai fazer três meses

Estou grávida!

Estou grávida, sim.

Como aconteceu?

Deve ter sido uma cegonha bem zarolha

Não estou brincando, que merda, minha mãe!

Pouco importa quem é o pai.

Sei lá quem é. Foram tantos.

Bate, bate de novo, bate na puta da sua filha!

Eu sei que vacilei legal.

Para mãe, para mãe, não é hora!

Basta o que já estou sofrendo

Bem feito! Você tem coragem de dizer “bem feito”

Você ouviu o que eu lhe disse?

Sua filha é uma puta grávida!

Essa é a última vez que você toca em mim

Não dá mais, mãe. Adeus, até nunca mais.

 

TODOS

O tempo não para

 

MAURO

Eu preciso de grana

Pra quê? Desde quando vocês se preocupam comigo

Sem conversa fiada, apenas quero um trocado

Por favor, não deixe eu fazer outra besteira

Não vou contar, não é de sua conta

É pra fumar, mesmo. E daí?

Minha galera, o que tem haver minha galera?

Gente que não presta?

Por que o problema é sempre dos outros e não nosso?

Essa é boa, os senhores ausentes querem agora me controlar

Querem me conhecer mesmo, então se sentem!

Bebo, fumo, cheiro ou injeto. Todas as noites...

Não, nada disso. Sem choro, faça o favor!

Pai... Mãe... pra se drogar eu até já roubei...

Como? Eu sou uma vergonha pra vocês?

Nem sempre a coisas acontecem com a gente quer

Vocês acham que eu desejo ser viciado?

É mais fácil jogar pedras do que afago, né?

Sou de família, pro diabos teu sobrenome!

Vocês sequer dormem juntos, são pura fachada!

Era o que precisava ouvir, a partir de hoje apenas sou Mauro

Fiquem calmos, não mandarei notícias.

 

TODOS

Merda de tempo

O Inferno é que não para!

 

CENA III

Música – Dom de Iludir (Caetano Veloso)

Cada um sabe a dor

E a delícia de ser o que é

Não me olhe como se a polícia

Andasse atrás de mim

Cale a boca

Não cale na boca

Notícia ruim

Você sabe explicar

Você sabe entender tudo bem

Você estar, você é

Você faz, você quer, você tem

Você diz a verdade

A verdade é seu dom de iludir.

 

SANDRA

Um brinde a nossa dor

Cheia de gírias, fumaças e espermas

Eu só quero gozar, nada mais

 

MAURO

Mais uma dose, por favor!

Minha vida precisa ser eterno Carnaval

Pena que a minha fantasia não tem cores

 

EZEQUIEL

Deixem as lágrimas para suas novelas

Não sou mais eu

Há tempos eu me decompus

 

TODOS

Mas se você achar que tô derrotado
saiba que ainda estou rolando os dados
por que o tempo
o tempo não para

 

EZEQUIEL

Aos quatorze anos eu já sabia o queria

O nome dele era Eduardo

Ele estudava numa classe mais avançada

O recreio era um quintal de sonhos pra mim

Eu podia admirar a beleza de Eduardo

No começo tive medo, sentia nojo do meu desejo

Queria me converter em todas as religiões do mundo

Mas não dava, os olhos amendoados de Eduardo eram a minha cruz

Eu já estava condenado a ser diferente dos outros

Como dói o fardo desse mundo ordeiro nas minhas costas

 

TODOS

Eu tô pedindo

A tua mão

Me leve para qualquer lado

Só um pouquinho

De proteção

Ao maior abandonado

 

SANDRA

As festas começaram a ficar mais freqüentes

Misturava a bebida pra dançar à noite toda

Depois eu só bebia, pouco dançava

No final eu estava no cio, era de quem me bancasse

Nunca pedi dinheiro aos meus pais

Achava e dava tudo de graça

Eu só queria ser aceita

Roupa de marca, celular, perfume, cerveja...

Mais aí vieram os sintomas

Mal consigo acreditar, tem alguém nascendo dentro de mim

 

TODOS

Disparo contra o sol
sou forte sou por acaso
minha metralhadora cheia de mágoas
eu sou o cara

 

MAURO

Fumei aos trezes anos escondido

Furtava as bagas do cigarro de papai

Achava desafiante, estava quebrando regras

A fumaça que cobria o céu era a mesma dos filmes americanos

Depois da balada o mais admirado era o que bebia mais

Com o tempo o álcool ficou sem graça

Eu queria mais, queira o proibido

Pena que o meu pai-nosso-de-cada-dia era caro

Mas não dava pra recuar

Dói dizer, mas eu assaltei uma pessoa