"O Auto de Caçatinga"

MARIANO – Fora os palavrões.

CARLOS – Mas por que esse mamão deu tanto trabalho para o senhor?

ZÉ ANTÔNIO – É que não tem mamão maior na região do que na casa de Tia Gloriete. Como eu pensei na saúde da Maria, não deu outra, peguei o maior que tinha no pé.

ROSINHA – Então era muito pesado.

ZÉ ANTÔNIO – Pra você ter um idéia, se eu colocasse ele num saco de estopa acho que se coubesse era com muito sacrifício.

CREUZA – O quê?

ZÉ ANTÔNIO – E tem mais, não achei homem nesta cidade pra carregar sozinho esse mamão.

MARTA – Mas tu conseguui entregar até a casa da Maria?

ZÉ ANTÔNIO – Inteiro não.

CARLOS – Mas por que?

ZÉ ANTÔNIO – Quem disse que passava na porta estreita da casa dela.

CREUZA – Minha nossa!

ZÉ ANTÔNIO – Tive que cortar o mamão no meio, caso contrário não tinha jeito. Parece até que é conversa minha, mas encontrei uns três assanhaços dentro dele.

CREUZA – Eta, que hoje ele tá é inspirado, meu Deus. (Creuza sai de cena)

ZÉ ANTÔNIO – Será que ela pensa que não é verdade Seu Mariano?

MARIANO – Não é isso não Zé, deixa pra lá.

ZÉ ANTÔNIO – Mariano, a prosa tá boa, mas tenho que ir dá comida ao meu gato.

Creuza aparece na janela.

CREUZA – É aquele do tamanho de um cachorro policial seu Zé?

ZÉ ANTÔNIO – É esse mesmo Creuzinha, até mais! Sai de cena.

MARTA – Será que ela acha que a gente acredita nele.

ROSINHA – É bem capaz.

(...)

MARTA – Num acredito, olha só quem vem ali!

ROSINHA – Mas não é o compadre Justino Pereira!

CREUZA – Mais o puxa-saco do Etevaldo.

 Entra em cena o compadre Justino e o seu assessor Etevaldo.

JUSTINO – Boa noite.

TODOS – Boa noite.

ETEVALDO – Boa!

TODOS – Boa!

CREUZA – Tô sentindo um cheiro de puxa-saco...

JUSTINO – Como vai seu Mariano e a senhora Dona Marta, cada vez mais jovem!

MARTA – Que nada, compadre Justino. Essa vida dura da gente só faz envelhecer mais.

JUSTINO – E essas meninas, cada vez mais bonitas. Logo vão está se casando, Mariano.

MARIANO – A Rosinha já tá encaminhada.

ETEVALDO – Quem é o pretendente?

ROSINHA – É o Carlos, Etevaldo.

JUSTINO – Carlos? De qual família?

MARIANO – Dos Ferreira.

ETEVALDO – Dos Ferreira! Família importante!

JUSTINO – Me digam com antecedência a data do casório para que eu possa comprar uma lembrancinha bem bonita.

CREUZA – Quem é besta de não convidar.

ETEVALDO – E a Creuza? Já arrumou algum pretendente?

MARIANO – Essa daí, se não cortar a língua e a ousadia, vai morrer coroa.

ETEVALDO – Mais até que a Creuzinha é bonita!

CREUZA – Mais até que não é pro seu bico!

MARTA – Mas me diga, Seu Justino, que milagre o senhor aparecer por aqui?

ROSINHA – Faz tempo mesmo.

JUSTINO – É a vida de político, não sabe. Defender Caçatinga é uma missão muito difícil, trabalhosa.

ETEVALDO – É verdade, o deputado Justino tem se esforçado muito pra cumprir com o seu dever, uma missão muito difícil, trabalhosa!

CREUZA – Não precisa repetir, Etevaldo. Ninguém aqui é surdo!

MARTA – Creuza! Tu implica com todo mundo, criatura.