"O grito"

O “Sepultamento” é uma dramaturgia para teatro de rua que ilustra o julgamento de Pedro. O texto também está disponível na íntegra. Abaixo, em arquivo pdf.

 

 

O SEPULTAMENTO

 

Prólogo

Todo o Teatro é um círculo. No centro há dois atores sentados em direção oposta dando a impressão que estão sustentando o morto e que são cegos e esmoles. Os outros Personagens fazem um círculo para marcar a área. Aparece em cena um vaqueiro, ele chega dando impressão que monta um cavalo e dá chicotes no chão tentando chamar atenção do povo.

 

CENA I

 

VAQUEIRO

Venha! Corra, prezada platéia!

Se divirta e se corrija com a presente comédia

Não só para sorrir de personagens fingidas

Que moram na ficção e mostram outras vidas

Mas para descobrir, atrás das fantasias,

A verdade que roça em nós todos os dias

Cada fala do ator é censura e conselho

Enquanto assistirem, estarão diante de um espelho

E assim podem ver debaixo do artifício

A beleza, a verdade, a hipocrisia, o vício

Assim também queremos atacar a impostura

Aí dos devotos sem fé, dos santos de alma impura

O vosso retrato aqui é fiel e traz desgosto

Já que reconhecerão aqui o próprio rosto.

(Para como se estivesse vendo o velório pela primeira vez)

Não se enganem com a vossa aparência

É verdade, minha gente, a beleza não tem essência

Não se engane com esses trajes de rude vaqueiro

Venho do inferno na função de mensageiro

Vim para anunciar a última profecia

Se Deus fez o mundo numa semana foi deposto no oitavo dia

Pois provaremos que todo mundo é culpado

Pela morte cruel desse pobre coitado

Esqueça a feira, a farinha, o chuchu e o quiabo

Não percam seu tempo e vejam a vitória do diabo

Aqui vai ter de tudo, de toda maneira

E cuidado quem pensa que isso é besteira

Pois se assistirem com silêncio e atenção

Terão aqui uma grande lição.

(Sai de cena circulando. Sons de chocalhos e de bombinhas)

 

PADRE

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo

Enterro esse homem com muito orgulho e pranto

Eis um homem honesto de verdade

São Pedro benzerá essa alma cheia de bondade

Vejam vocês povo dessa região

O que é um homem de bom coração

Ia pra missa todo o domingo rezar

Na hora do ofertório era o primeiro a depositar

 

 

BEATA

Eu estou de prova dessa caridade

O nosso santo padre tem o dom da verdade

Mesmo morando lá na ribanceira

Não perco missa nem de caganeira

Eu, beata fiel e devota da santidade

Observo a conduta dessa cidade

E garanto que esse homem é honrado

Não encontrarão nele algum pecado

 

POLÍTICO

Bom dia, minha gente, o dever me chama

Sou o vereador que tanto vos ama

Também falarei nesse momento de aflição

Pois morre hoje um grande cidadão

Eis que temos aqui um poço de formosura

Não veremos nesse eleitor falsidade e usura

Eu sempre levei esse homem a sério

Choremos pela sua morte nesse cemitério

 

POETA

Esperem, ainda não é hora de chorar

Deixem pelo menos poetar

Quero dedicar a esse meu amigo contemplado

Um versinho meu improvisado:

Pedro, és um navegante aventurado

Agora, tua nau és um broquel dourado

Na tua morte aprendemos a ser gente

Na tua amizade viveremos eternamente

 

GARI

Desculpe as palavras já que careço de formação

Mas antes de versos, é tu meu irmão

Sou um gari, é verdade

Mas tenho em ti minha sincera amizade

No meio de pessoas ilustres

Pergunto se merecia morrer comido de abutres

É santo já que morre em castidade

Trago tua noiva, a deusa da virgindade

 

VIRGEM

Meu amado, não se vá não

Por que nossas promessas não foram em vão

Mal acabara o nosso lar

Deus guardou pra ti outro abrigo pra ficar

E eu que te esperei tanto tempo

De véu fico e sem casamento

Serei tua por toda vida

Virgem e pura, ao contrário dessa rapariga

 

PUTA

Desculpe-me, Pedro, não queria te ofender

O meu sentimento verdadeiro não queria esconder

Minha presença é aqui condenada

Chamam de puta e de safada

Mesmo tu não sendo amigo e nem parente

Sei que de todos era o único diferente

Sei que também me admirava

Sem ti a cidade me apedrejava

 

BÊBADO

Espere ai um segundo

Ainda não enterre o defunto

Esse meu companheiro de boêmias

Já cantou comigo várias melodias

Não enterre esse homem agora não

Deixe pelo menos uma dose cair no chão

Brindo a morte desse cavalheiro

O único amigo meu verdadeiro