"A tragédia do aipim"

*A dramaturgia “A tragédia do Aipim” nunca foi encenada, trata-se de uma “comédia de revista” escrita em 1997. A peça está disponível na íntegra, abaixo, em pdf.

 

 

ATO ÚNICO

 

CENAS

 

(Trevas – Apenas ouve-se a voz dos atores)

RANHENTA – Acorda Santinha. Acorda mulher que o sol já vai abrir. Cuida, se levanta troço, é hora de cuidar das coisas!

SANTINHA – Ô Ranhenta, fala mais baixinho.

RANHENTA – Baixinho?

SANTINHA – Isso, Ranhenta! A Santinha aqui tá com um soninho tão gostoso.

RANHENTA – Ai, filha da mãe! Ai, alma sem pecado!

SANTINHA – Ô mulher que implica, Senhor, ilumina essa criatura Santo Agostinho, bota pra ela deixar eu dormir só mais um pouquinho.

RANHENTA – Acorda Infeliz, tá vendo que o nosso convidado tá pra chegar.

SANTINHA – Que absurdo Ranhenta, deixa de ser apressada mulher, tá vendo que o sol ainda nem se espreguiçou. Num tá vendo tudo escuro.

RANHENTA – É só sair do quarto e ascender a luz (Ranhenta puxa a orelha da Santinha e leva para o palco. As luzes se ascendem e  apresenta-se um cenário cuja descrição se resume numa simples casa nordestina: uma sala, cozinha e uma esteira no canto esquerdo da casa) Deixa de ser preguiçosa Santinha, dá vontade de até judiar uma criatura dessa.

SANTINHA – (choro de dengo) Ui, ui, ui...

RANHENTA – O que foi desta vez, Santinha.

SANTINHA – Você me judiou, viu. (continua com o chorinho)

RANHENTA – Santinha, Santinha.

SANTINHA – Doeu, Ranhenta.

RANHENTA – Deixe de dengo e passe ferro na minha roupa, quero esta blusa toda engomada para receber a visita de nosso sobrinho.

SANTINHA – Ranhenta?

RANHENTA – Oi!

SANTINHA – Ranhenta, minha flor!

RANHENTA – Que foi criatura?

SANTINHA – Pro mode perguntar, por obséquio, tu vai fazer o que agora?

RANHENTA – Mais que enxerida!

SANTINHA – Diz pra Santinha o que tu vai fazer, amor?

RANHENTA – Vou fazer as minhas unhas, belezinha.

SANTINHA – Tu vai fazer as unhas, Ranhenta? (novamente inicia um choro de dengo)

RANHENTA – O que foi dessa vez Santinha? Ô mulher que chora meu Deus!

SANTINHA – Tudo eu... Tudo eu...

RANHENTA – Eu já te falei um bando de vezes, eu tenho mais idade do que tu, mulher. Eu tô cansada, fui eu que te criei praticamente. E saiba de uma coisa, fazer unha não é uma tarefa fácil. E olhe a minha blusa, não vá se atrasar! (Ranhenta vai saindo de cena)

SANTINHA – “Não vá se atrasar”. Vá pro diabo se danar!

RANHENTA – O que você disse, Santinha?

SANTINHA – (com medo) Tenha cuidado pra não se borrar! A uninha, Ranhenta!

RANHENTA – Tá bom, Santinha. Tá bom. Depois que o sol se levantar mais um pouco chame o Robertinho pra varrer a casa. (sai de cena)

SANTINHA – Sempre eu, tudo eu, só eu, eu, eu e eu... Um dia eu ainda vou conhecer um príncipe forte, meigo e cheio de vitamina pra me levar embora daqui. Mas a minha pureza de donzela nunca vai se acabar. (Robertinho na rede começa a se gemer) O Robertinho tá numa gemedeira. Ô criado preguiçoso, eu vou acordá-lo. (Santinha vai em direção da rede)

ROBERTINHO – Ai, amor, faz tanto tempo!

SANTINHA – Robertinho, acorda!

ROBERTINHO – Sai! Ele já vai conseguir!

SANTINHA – Já vai conseguir o que Robertinho. Tu sonhando, criado sem-vergonha!

ROBERTINHO – Vai Carlão, vai pra direita.

SANTINHA – Direita?

ROBERTINHO – Agora sobe mais um pouquinho.

SANTINHO – Soube mais um pouquinho?

ROBERTINHO – Amor, seja romântico. Quero ver passarinhos ao meu redor!

SANTINHA – É descaração, minha gente!

ROBERTINHO – Me faz flutuar, amor! Acerta logo! “Camon, plis, oh my Carlão”, vai porra!

SANTINHA – Até inglês ele tá falando.