"O Auto de Caçatinga"

*O Auto de Caçatinga foi encenado pelo grupo cultural “Vala-me Deus”. A dramaturgia retrata uma disputa entre o Diabo e o Anjo pelos habitantes de Caçatinga representados pela família de Mariano. A dramaturgia também narra costumes, lendas e “causos” sobre Jaguarari (Bahia), conforme a cena escolhida abaixo:

 

CENA IV – A NOITE

 

Noite. Ouve-se perfeitamente bem o sereno, o cantar do grilo. Mariano e Marta colocam as cadeiras na calçada. Marta coloca uma bacia de feijão de corda no colo.

MARTA – Mariano.

MARIANO – Diga!

MARTA – Eu tou preocupada com a nossa filha.

MARIANO – Mas tu não me disse que os pais do rapaz tem recurso e dos bons?

MARTA – Não é dá Rosinha que eu tô falando não home, é da Creuza.

MARIANO – Oche, ela nunca foi é boa da cabeça. Já nasceu dando língua!

MARTA – Num fala assim de tua filha Mariano!

MARIANO – Mas por que tu tá preocupada?

MARTA – Primeiro não estuda. É péssima na leitura, tabuada nem se fala, toma palmatória adoidado da professora Genésia. O pior de tudo é caligrafia, não tem cristão que entenda.

MARIANO – Mas tu não bota esta menina pra estudar?

MARTA – Até parece que adianta. Vive com a cabeça na lua.

MARIANO – Se fosse na lua era até bom. Mas é na estação que anda a cabeça dela. A minha bainha de facão tá coçando que é uma beleza. Deixa eu souber que anda olhando os rapazes que chega no trem. Humm, ela vai ter o que merece!

Chega em cena Carlos.

CARLOS – Boa noite!

TODOS – Boa noite!

CARLOS – Com sua licença seu Mariano, Rosinha está?

Creuza aparece na janela.

CREUZA – Ela viajou Carlos, mas eu posso fazer companhia.

Rosinha aparece na porta.

ROSINHA – Creuza!

CREUZA – Tava brincando irmãzinha do coração.

MARTA – Deixa de conversa Creuza, vai ajudar a tua irmã trazer as cadeiras.

Carlos tenta se sentar pertinho de Rosinha.

CREUZA – (à parte com Mariano) Painho, não acha que eles estão juntinhos demais?

MARIANO – Marta, é melhor tu ficar no meio, fica mais bonito.

ROSINHA – Mainha já falou até com o alfaiate.

MARTA – É o melhor da região.

ROSINHA – O tecido é todo de seda, vai ficar muito lorde.

MARIANO – Tem duas coisas que gasta muito dinheiro: doença e moça noiva.

CREUZA – Olha só quem vem aí. É Seu Zé Antônio!

MARIANO – Viche Maria.

CREUZA – Lá vem mentira.

Entra em cena Zé Antônio.

ZÉ ANTÔNIO – Boa Noite, pessoal!

TODOS – Boa Noite!

MARIANO – Chegou em boa hora, seu Zé Antônio, Rosinha vai pegar uma cadeira na copa.

ZÉ ANTÔNIO – Não carece não Rosinha, eu tô de passagem. Hoje o trabalho foi duro.

MARTA – Tu fez o que homem?

ZÉ ANTÔNIO – Carregando uns mamões grande de Tia Gloriete, Dona Marta.

CREUZA – Já tou adivinhando a mentira.

MARIANO E MARTA – Creuza!

ZÉ ANTÔNIO – Eu não gosto de contar as coisas, o povo pensa que é mentira.

ROSINHA – Não liga pra minha irmão não, pode contar Zé Antônio.

CREUZA – (à parte) sonsa!

ZÉ ANTÔNIO – Vai parecer exagerado, mais é a pura verdade. Foi sacrifício dona Marta, mas vejo só como era grande esse mamão. Era para entregar a Maria do Seu Cláudio. Tudo mundo aqui na cidade é testemunha das prisão de ventre dela, pra bosta sair tem que fazer é muita cara feia. Se fosse com o Pedro Benedito, do jeito que ele é ignorante, já tinha feito um arte com a bunda.