"Até parece"

Encontramo-nos na escadaria do Fórum. Como de costume, ele me cumprimentou com discrição e perguntou se o promotor estava atendendo, pois já fazia muitos meses que tinha denunciado policiais como responsáveis pelo tiro que sofrera.

Poucos minutos depois, contaram-me que ele fora assassinado, motoqueiros dispararam quatro tiros sobre seu corpo, sendo dois na nuca. Fiquei atônito por alguns dias, principalmente depois que escutei a canção do cortejo fúnebre:

Quando a polícia cai em cima de mim
Até parece que sou fera
Até parece, até parece...

Hoje, pela manhã, minha vizinha estava apavorada com tanto cachorros mortos espalhados pela rua, alguém, durante a madrugada, distribuiu veneno.

Sinto meus dedos mais pesados nesta crônica, incomoda-me qualquer covardia sorrateira, qualquer perseguição ou abate, pouco importando se quem agoniza pela calçada parece fera ou não, se é grito ou latido.

Meus passos também estão vacilantes, talvez acuados pela barbárie e pela proximidade da finitude. Cada vez mais, faz sentido o belo cartão postado por Marcos Cesário, ilustrando uma frase de Caio Fernando Abreu: “A vida é apenas uma ponte entre dois nadas e tenho pressa”.

Todavia, ainda restam fendas no caminho, nem que seja no rastro do povir, na teia da quimera que fisga os olhos da poesia e acalanta as dores da insensatez.

Antes de trabalhar, abracei várias vezes minha dócil labradora e saí cantarolando a Marcha da Quarta Feira de Cinzas de Vinícius de Moraes.

E no entanto é preciso cantar

Mais que nunca é preciso cantar

Verdade, poeta. Mas também não esqueçamos o alerta de Edson Gomes: “Até parece, até parece...”