"Alzira como um filme"

Ainda sorvia o aroma forte da sopa de legumes, quando apareceu a voz rouca e simpática de Alzira lamentando o descuido por não me servir o pão. Era um dia sisudo, Portugal não parecia mais me encantar. No entanto, os seus olhos eram firmes e maternos, alcançando-me com uma sutileza incomum. Não me contive, entreguei meu cartão e disse que logo escreveria uma crônica com nome “Alzira”. Ela ficou inerte por alguns segundos, mas logo sorriu:

- Pois sim... sim... Alzira... Alzira, como um filme...

Quem andar pelas ruas antigas de Coimbra procure Alzira. Não se impressionem com a escada sombria e a luz triste que desbota o restaurante. Garanto que logo surgirá uma voz segura e acolhedora que te abraçará, deixando o seu prato mais bonito, insistindo que experimente a sobremesa, refinando o tempero do seu peixe e da sua alma.

Voltei ao estabelecimento outro dia, mas não a encontrei. Era seu dia de folga. Lamentei não ter me despedido da bela senhora. Apesar do vidro da janela embaçado, achei um silêncio lento no pedaço da varanda e senti dentro de mim o aranhão dos desencontros.

Interessante, de certa forma, Alzira estava certa... “como um filme”...