"A vida é um flash"

A morte tem aparecido de forma sombria na minha cidadela: acidentes, punhaladas e enforcamentos. Talvez por isso que o Crocodilo, com sua voz grave e riso estridente, não lhe falte reflexões filosóficas sobre a brevidade da vida:

- Sempre disse que a vida é um “flash”, quando menos se espera já “tamo” envelopado e aí já era!

Sei que não há novidade na sua fala, mas em tempos de ausências, escrevo esta crônica percebendo um vazio em minhas mãos e uma alma já bastante desfolhada.

Agora mesmo, enquanto meus colegas discutem sobre a manutenção da greve por causa dos desmandos do presidente do Tribunal, aparece meu amigo Ramalho com uma antiga modinha caipira, toando meus abismos: “Ai, eu vi a morte p'los óios, no meio do chapadão... eu encontrei com meu benzinho, nem pude dar a mão...”.

 No entanto, o sábio Crocodilo, alisando seu queixo cabeludo, aponta suas soluções:

- O negócio é não desanimar. Eu jogo duro, não brinco em cena. Me perfumo todinho, tomo uma “breja”, arranjo uma mina, digo que ela tem olhos de serpente sedutora e levo para Pousada. A gente fica trocando umas ideias em uma suíte limpinha, aprumada, com direito a chuveiro quente e ventilador. Se brincar ainda boto minha sunga vermelhinha... rá rá  rá rá... depois só felicidade, um “flash”... rá rá rá...

Concordo que em dias de temporais é preciso “jogar duro” e arriscar quimeras de belos “flashs”. Porém, mesmo defendendo que cada um busca aquilo que melhor lhe preenche, confesso que sunga vermelha é de um tremendo mau gosto... “rá rá rá”.