"A espera"

Depois que sua cachorra faleceu, meu primo não come mais carne animal e sai pelas ruas para distribuir comida a mendigos e cães. É comum se aborrecer com a insensibilidade humana diante da dor física e espiritual dos animais.

Ontem ele me confessou que faz preces diárias para que sua amiga/filha/irmã reencarne em outro cachorro e aguarda ansioso para que ela possa retornar para os seus braços. Há quarenta e cinco dias, em uma chácara, nasceram alguns filhotes e há uma esperança que ela esteja retornando.

Sempre tive minhas dificuldades com a reencarnação, gosto muito de mim e acho que o criador deveria me aproveitar por inteiro, inclusive os defeitos que me sustentam nos dias de abismo. Todavia, acredito na espera do meu primo e no retorno de sua bela cadela, pois, muitas vezes, a teia do amor fisga o improvável.

Também costumo apostar no cais da espera e, embora as estações mudem e os desencontros surjam em nuvens pesadas, ainda se pode mirar nos milagres do crepúsculo, mesmo quando sua aquarela apenas se espalhe dentro dos nossos olhos.

Primo, talvez o segredo seja nunca desistir da quimera, como as tintas nos papeis amarelados, resistindo um tempo que pode desbotar, mas que não apaga as manchas de quem escreveu com as camadas da própria pele e não renuncia o devir.