"A bala Juquinha"

Já tinha mais de quatorze anos quando recebi o convite de minha prima Viviane para assistir a um filme em sua casa. Dentre outras escolhas, achei linda a capa do lançamento Uma Linda Mulher, mas o seu namorado tinha uma preferência distinta da minha:

- “Coloca o do Brinquedo Assassino 2, Vivi, parece que é bom”!

Percebendo parte de minha angústia silenciosa, minha prima contestou: “Rogério, vamos ver outro filme, Edmar não gosta de filme de terror!”. Ela estava certa, nunca tinha assistido a algum filme desse gênero, mas o seu namorado testou minha virilidade: “O Edmar já é cabra macho, não vai ter medo de um filmezinho de assombração, é só um boneco”. Embora quase sem fôlego e bufando de raiva, como de costume, fui diplomático: “Não, Viviane, pode botar esse mesmo, tem nada não, gosto também desse tipo de filme, é só um boneco, né!?”.

Perdoem a minha pouca experiência com filmes de terror, mas fiquei impressionado com aquele brinquedo rodando o pescoço a 180º e dizendo frases de efeitos como: “Oi, eu sou o Chucky, quer brincar?”... “eu vou te pegar!”.

Além do filme terminar caprichosamente perto da meia-noite, minha prima ainda cometeu o descuido de perguntar se queria que o Rogério me acompanhasse até em casa. Repliquei logo: “Oche! Besteira, Viviane, eu vou sozinho!”. Não me despedi de seu namorado, não queria ver os seus olhos risonhos e cintilantes, como quem indicasse que haveria algum “boneco feio” me esperando no “beco de Seu Branco”, famoso por ser escuro e mal assombrado.

Sempre que conto esta “estória” não contenho o arrepio na minha face, enquanto que os meus ouvintes riem da minha angústia boba. No momento em que cruzei a metade do maldito beco, meu corpo gelou quando percebi algo se arrastando atrás de mim, custando-me a olhar para trás. No entanto, tive um alívio provisório ao constatar que havia apenas um papel de bala amarelo com um garoto simpático estampado nele.

Quem tiver uma idade parecida com a minha já deve ter chupado alguma “bala Juquinha”. Naquela época, tinha balas Juquinha com papéis de cores variadas e todas elas se prendiam facilmente no céu da boca. Infelizmente, naquela noite o vento estava faceiro, era só avançar alguns passos e ele soprava o papel de bala atrás de mim, convencendo-me, aos poucos, que aquele menino, loiro e sorridente, estava me seguindo. Sei que é absurdo, mas apressei meus passos, quase correndo, para me livrar do papel de bala. Maldita ventania endiabrada, arrastou, coincidentemente, o “Juquinha” e todo o medo do mundo para perto de mim. Restou-me apenas correr, sem fôlego, mais de quinhentos metros até chegar a minha casa, quase de olhos fechados, tentando abreviar o caminho.

Ao chegar perto de casa, aproximando da calçada, bem na minha frente, havia outro papel de bala amarelo do Juquinha. Mas não era isso que o filme de assombração que tinha assistido me ensinara, era ele, o mesmo Juquinha do beco, na sua espreita ardil, esperando-me e olhando para mim com sadismo, soletrando meu infortúnio: “Oi, eu sou o Juquinha, eu vou te pegar!”.

Minha mãe até hoje se lembra da noite em que meti o pé na porta de casa e gritei pedindo socorro: “é o Juquinha, mãe, me acode!”. Na segunda vez que ela me perguntou apavorada, já no conforto do meu quarto, percebi o grau do meu delírio: “Nada não, mãe. Tou só brincando, a Senhora fecha a porta de casa pra mim!”.

Engraçado, depois desse dia, nunca mais encontrei essa bala. Um dia me mostraram uma bala Juquinha mais moderna, mas era um menino loiro mais infantil, não parecia com o Juquinha de antigamente. Bem, acho que cumpri com o trato que fiz com alguns colegas para narrar esse episódio; todavia, ainda continuo tendo medo de muita coisa, minha imaginação insiste em me levar para becos imprevisíveis, mas acho que perco muito fugindo da ventania.